segunda-feira, 30 de junho de 2008

Leve



N Ã O M E leve a mal, me leve à toa pela última vez a um quiosque, ao planetário ao cais do porto, ao paço.
O meu coração (meu coração, meu coração) parece que perde um pedaço.
Mas não me leve a sério. Passou este verão. Outros passarão. Eu passo.
Não se atire do terraço, não arranque minha cabeça da sua cortiça.
Não beba muita cachaça, não se esqueça depressa de mim, sim?
Pense que eu cheguei de leve, machuquei você de leve e me retirei com pés de lã.
Sei que o seu caminho amanhã será um caminho bom, mas não me leve.
Não me leve a mal, me leve apenas para andar por aí na lagoa, no cemitério, na areia, no mormaço.
O meu coração, (meu coração, meu coração) parece que perde um pedaço, mas não me leve a sério.

Passou este verão.
Outros passarão.
Eu passo.

(Leve, Chico Buarque)

domingo, 22 de junho de 2008

Um pouco de verdade

Q U E S E se foda a literatura, a música, o cinema. Que se fodam todas as artes, da primeira a última. E, principalmente, que se fodam todos aqueles que um dia inventaram glamour nas cenas de loucura. Que se foda Paulo Coelho e sua Verônika que decide morrer. Até a Pitty, que se foda, com aquele Anacrônico de camisa-de-força.
Isso não é glamouroso.
Isso não é engraçado.
Já fui como vocês, que via beleza e poesia em remédios de tarja-preta, em terapias de choque e em vândalos descabelados gritando dialetos indecifráveis.
Mas isso não é bonito.
Isso não é poético.
Isso é triste.
Isso é doloroso.
E dói pra caramba.
Isso não me traz inspiração.
Eu não vou escrever um texto bonito. Eu não vou usar palavras difíceis. Só escrevo porque isso aqui faz algum sentido pra mim. Não é aqui onde guardo alguns dos meus sentimentos? Pois também esse quis guardar. É chato ler tanta gente se achando doente quando na verdade não é. Tanta gente que nem sabe como isso dói.
Não é brincadeira, dói de verdade. Uma dor que me corta o coração (não vou nem fugir dos clichês), ver você assim e não saber o que fazer. Eu queria não me importar, eu queria saber virar as costas e deixar passar, me distrair. Mas eu não consigo. Dói.
Já estou fraca demais pra agüentar você sumindo, você surtando, você nunca-bem. Como eu queria que fosse tudo normal. Como eu queria que ficasse tudo calmo.
Mas é o telefone tocando e me ameaçando, dizendo coisas feias que eu nunca queria ouvir da sua boca. Eu não consigo mais. Esse peso é demais pra eu carregar. É tão-mais-que-eu, que já aprendi que o único jeito de manter um pouco estável é eu deixando de ser eu pra ser você.
Dói mais ainda saber que não é culpa sua. Que, por você, poderíamos ficar bem. Talvez fosse até a sua vontade. Se não fosse essa coisa que te domina e te faz me machucar. Adianta procurar ajuda? Adianta escrever?
Sei que também tenho culpa. Mas foram minhas fraquezas, foi o meu desequilibrar com o peso que carrego. É tão doloroso te olhar mas não te ver. É tão doloroso te olhar e não te reconhecer.
Eu queria que nossa relação não fosse doente psicótica ego-dependente. Eu queria que fôssemos de andar de mãos dadas na grama, de abraçar pra aproveitar o frio, de esperar o sol se pôr e de ter tanta intimidade pra ficarmos dançando na cozinha enquanto esperamos o pão de queijo assar.
Eu queria que, por uma vez, seu sorriso não viesse com sarcasmo. Eu queria que, por uma vez, o nosso dia terminasse bem.

quinta-feira, 12 de junho de 2008



E R A U M A tortura ver seus dedos deslizando pelo violão. Eu via um gesto obsceno - e você o prosseguia ali, no palco, com todo mundo vendo. Eu te avisei. Eu gritei e falei cuidado com seu zíper ele pode abrir, mas você não me ouviu. Você não ouviu ninguém. Você permaneceu lá, intocável, como se estivesse numa altura superior a nós, como se nada pudesse te atingir. E um dia você foi assim comigo. Eu lembro. E agora é o violão que sente o seu arrepio. Fico no lugar onde você não me vê, onde não vês ninguém. Pois está acima de todos, e vai continuar assim até o concerto acabar e o violão suspirar o seu orgasmo pleno. Quem dera.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Inexplicável

S O U I M P A C I E N T E, e às vezes me incomodo com as coisas inexplicáveis. Confesso que sumi daqui de perturbação. Mas já passou, eu acho. Essas coisas que se dissolvem com o tempo. Às vezes eu ainda encontro pedacinhos de pó no meio das minhas roupas, pedacinhos do que um dia foi dissolvido, e só de encontrá-los e lembrá-los parece que, como química, o pó se dissolve na agüinha que sai dos meus olhos e se refaz, talvez até mais forte. E tudo é sobre força.
Eu ficava muito irritada e impaciente por não entender aquilo que alguns acreditavam ser inexplicável. Eu perguntava, sabe? Ao redor, aos ventos, por que é que as coisas são ou têm que ser assim? E ele me dizia que era coisa de coração, que era inexplicável. Mas não. O tempo me fez enxergar enquanto dissolveu o pedacinho de pó no qual você ressurgiu aqui.
Eu sou fraca. Exatamente tudo aquilo que você não queria: uma pessoa fraca. Eu fui Eu Demais, e te mostrei além das minhas fraquezas. Te mostrei minhas cicatrizes e meus pequenos arranhões. Você não queria saber. Você não queria ver isso. Você com seu semblante de mistério que adora sustentar, é tão fraca quanto eu. Mas você esconde. E você quer alguém que saiba esconder tanto ou igual a você. Você quer alguém "forte".
Eu sei quem parece ser forte e isso me consola. Essa força é forjada - todo mundo é fraco. Mas é tão imponente e tão admirável mentira que cativa, que seduz. Os seres humanos e suas artificialidades. Eu não. Sou fraca, sou eu, sou de carne, osso e algumas histórias pra contar. Em algum momento, senti muito por não ser tão cativante, ou por ser natural demais. Você sabe, esses meus impulsos, essa minha natureza.
O tempo não me mostrou apenas o abismo que nos separa - que também é mais feito de mentiras do que de verdades - mas também me fez ver além das suas fraquezas. Vi tantas coisas que você nem sabe.
Não deixei de te admirar por ter te descoberto. Aliás, o manto que te esconde nunca me enganou. Eu sempre consegui te ver. E isso não se compra, não se produz, não se pinta, não se finge. É assim, natural e inexplicável.

P.S.: Caso vocês não tenham percebido, eu adoro composições com o prefixo IN.

domingo, 11 de maio de 2008

Garrancho

E U J Á P A S S E I daquela fase em que eu achava que só poderia ser útil à noite. Que eu deveria estudar à noite, trabalhar à noite, porque durante o dia eu não conseguiria produzir. De fato, ainda tenho a tendência de ser mais intelectualmente ativa à noite. Mas descobri o café e o jornal das manhãs. E descobri que pores e nasceres do sol me angustiam porque são o espectro físico que representa o fim em sua mais natural forma. O fim do dia, o fim da noite. É a hora que termina, a hora de ir embora, é quando as chances acabam, é a hora de desistir. E não há nada que a gente possa fazer quando o sol está indo embora - ele está longe demais.
Porém, a noite ainda me fascina. As luzes da noite. Pergunto-me se mais alguém tem essa incrível sensação de noite. Não há como descrevê-la. Poderia dizer que é como uma sensação de vazio que não fere. Mas não é bem assim. É sensação de noite. É do glamour da solidão, dos vícios, das luzes. Será que alguém sente o que eu sinto sobre isso? Será que alguém vê o que eu vejo?
Cada noite me dá uma idéia. E sou cada uma delas, com seus formatos exagerados e espalhafatosos - as sou. Só naquele momento, talvez, mas sou e elas são verdade. Penso-as e as trabalho. Algumas vezes, transcrevo-as, mas quando chega o final do papel, exatamente na hora do ponto final, quando o sol começa a aparecer e nos estressar, elas não fazem mais sentido, e nem eu entendo o que escrevi.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Invasão de privacidade

N E M C A B E discutir aqui sobre o quão abutres infelizes e sádicos são (ou somos) os jornalistas. Mas domingo pensei até onde deveria ir essa tal liberdade de imprensa. Não confundam com liberdade de expressão. Quando penso em liberdade de expressão, vejo muros pixados de indignação, vejo manifestações, vejo pessoas lutando por algo que lhes seja um ideal. Ainda que tudo isso seja fantasioso, está aí a liberdade de expressão caso queira se tornar real. Liberdade para que aconteça, mesmo que não aconteça.
Enfim. Estou falando da liberdade de imprensa. A liberdade de entrar na minha casa enquanto eu como minha pizza de domingo, com as pessoas de domingo, no friozinho do outono, com a pantufa de três dias, e, de repente, discretamente, estampar na tevê de canto um dos Crimes Mais Cruéis do Mundo. Perdi a fome. Meu coração ficou apertado.
Não é que eu seja egoísta. Mas eu não precisava passar por esse mal estar. Eu não queria passar por isso. Eu não queria saber que alguém seria capaz de ser tão mau. E agora? A filha e os filhos-netos do bandido, como estão?
Eles estão com as caras estampadas nos jornais, nas televisões. Será que algum dia poderiam recuperar o tempo perdido?
Estou indignada, e estou impotente. Assim como todo o resto da população. Que comenta pelos pontos de ônibus. Mas não vai mudar nada. Ninguém pode fazer nada, ninguém nunca pôde, ninguém nunca fez. E se alguém se sentir inspirado com essa história? E se ela se repetir porque alguém tinha potencial de crueldade equivalente, mas simplesmente nunca tinha pensado nisso?
É a mesma coisa com a menininha que foi jogada do prédio. A princípio, todos ficaram chocados. Depois, a notícia vendeu tanto, causou tanta curiosidade que hoje é uma piada! Como assim? Uma brutalidade daquelas foi tão banalizada que hoje virou piada, virou comunidade de orkut.
E a família, que sofreu todos os dias, todas as horas, que nunca via o sol durante 24 anos. Estão esfregando sua cicatriz nas lentes da câmera. Pra comover, pra chocar, pra vender. Olha só como esse mundo é cruel.
Nós, seres humanos, somos mesmo muito patéticos.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Acima do chão

T A L V E Z, tudo poderia ficar exatamente como está. Imóvel, intacto. Bem como o meu estado de euforia. Que vivia de se repetir de algumas frações de segundos subjetivas. Completamente subjetivas. Eram segundos como outros quaisquer se fosse outro olhar qualquer, outro vidro qualquer. Que provavelmente nem quiseram dizer nada, mas meus sentidos quiseram escutar. E por aquilo não ser o que gostaria que fosse mas talvez querer dizer algo que eu gostaria de ter ouvido mas de fato não ouvi, senti um arrepio. E eu conseguia fabricá-lo toda vez que me lembrava da cena. Agora tenho andado acima do chão, cantando com os passarinhos e sorrindo para o sol e a chuva, porque eles não me queimam nem congelam.
Poderia ficar tudo assim, exatamente como está, com um reprodutor de boas sensações que meu corpo produziu sem me consultar, apenas respondendo a um estímulo subliminar.
Sei que não vai ficar assim, mas vou aproveitar enquanto é tempo e vou sorrir para o cobrador do ônibus.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Pequeno tutorial de Como As Coisas São

V E N H O devagar, onde há pessoas com humores refinados e pensamentos quadrados. Todos me cativam, todos me fascinam de algum jeito, absolutamente todos, nem que seja só por um momento. Eu poderia dizer que sou uma completamente apaixonada por pessoas, mas aí eu estaria mentindo. Não sou. De tanto elas me apaixonarem, elas, as pessoas, acabam fazendo com que eu veja demais, que eu saiba demais. E, de quanto em quanto, elas ficam tão iguais, tão repetitivas, tão sem-forma e sem-graça. Acontece que elas me acometem de sensações conflitantes, que me impulsionam e me fazem me sentir viva. Coloco algumas em pedestais. Não posso tocá-las. Lá elas ficam, inatingíveis, irreais, desumanas. Mas perfeitas.
O resto, a grande maioria que fica comigo no chão, é cheia de defeitos. E eu conheço cada um dos defeitos e seus efeitos. Isso às vezes me enlouquece. Esses exemplares da espécie humana parecem tão pequenos, tão vazios. Conheço - e isso eu posso dizer que é fato - todas as intenções. Quando alguém sorri, eu sei o que está pensando. Eu só sei. E, por saber, e saber que são tantas trivialidades, parece que o mundo, com tantas cabeças desproporcionais, não passa de um depósito de almas frias - que não pensam por si só. Elas só reproduzem incansavelmente os mesmos velhos discursos, as mesmas facetas, os mesmos joguinhos de competição, e até os mesmos jeitos de gesticular com os braços e as sobrancelhas.
A pior parte não é essa. A pior parte é que eu só sei, só sinto saber o que sinto que sei porque, no mínimo, eu conheço o sistema e sei como ele funciona. Porque sou parte dele, sou também ele. E, aos olhos dos outros, também devo ser previsível e sem cor. E você provavelmente responderia sim para essa minha pergunta: você também já não sentiu isso antes?

Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes.

A parte boa é que, eu, como ser humano sem graça e sem brilho nos olhos, como parte da multidão, também tenho o direito de errar. E, de vez em quando, a vida me surpreende. Como quando acontecem aqueles turbilhões associados a Platão. Foi de arrepiar e tremer quando me olhou nos olhos e disse: você

domingo, 13 de abril de 2008

Dulcinéia que morreu de facada nas costas

- S A B E quem morreu, Zé? - perguntou, tomando um gole do café.
- Sei não, quem?
- Dulcinéia.

Zé nem perguntou de quê nem nada. Resmungou um "hum" e sentou para comer o queijo. No jornal, tinha uma notinha. Dulcinéia morreu de morte morrida, mas foi de facada nas costas neste dia 09 de junho de 1967.
Dulce era uma estrela, mas, debaixo da terra virou nota de jornal. Dulce tinha tudo pra ser tudo. Cantava bonito, tocava violão e tinha até cabelo liso. Mas levou uma facada daqui, uma facada dali e nunca mais cantou. Todo mundo chegava e, ao invés do tradicional tapinha nas costas, metia-lhe a faca com força e dizia seja bem-vinda. Mas Dulce foi descobrindo, era esperta. Cortou um por um. Arrancou cada faca das costas e riscou da lista de amigos. A lista foi ficando tão grande de nomes cortados, que Dulce parou de listar. Nos últimos dias de sua vida já tinha tanta facada nas costas que nem tinha espaço pra mais. E não falava com ninguém há mais de dois anos porque ficou com tanto medo das pessoas que preferiu ser sozinha. Ela mesma se esfaqueava de vez em quando para lembrar-se de quem era. Mas o violão, ela nunca mais pegou.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Onde toda a beleza do mundo se esconde

"Longe, lá de longe
De onde toda a beleza do mundo se esconde
Cante, para ontem
Uma voz que se espanda e suspenda esse instante"

N O T A - S E que esteve lá longe, no lugar onde toda a beleza do mundo se esconde. Ela caminha flutuando, como se ainda estivesse . Mas não está. Não está porque nós conseguimos vê-la. E é longe. Se estivesse, não conseguiríamos, nem com uma lupa. Entendo que a lembrança ainda a faz flutuar vez ou outra. E até engana, ilude. Sei bem como é isso porque eu também já estive . E já a levei . Foi isso o que aconteceu. Suguei dela toda a beleza e vitalidade e joguei tudo . Para que eu pudesse voltar sempre que eu quisesse. E, , encontrasse essa beleza e vitalidade intacta. Mas não sou assim, tão cruel a ponto de roubar-lhe a alma. Devolvi.
Contudo, alguém teve a mesma idéia que eu. Só que não devolveu. Deixou , e, assim, virou seu deus. Agora, a leva de vez em nunca. E quando ela vai, fica tão feliz que chega a dar dó. Fica feliz e cega, pensando que está lá longe, onde toda a beleza do mundo se esconde. Que se tranca e espera sonhando que seu deus a leve. Sempre impaciente e ansiosa pelo dia em que puder ir de novo, e de novo. Mas fingindo estar calma. Porque o contrário causaria a ira do deus e o castigo seria mais uma eternidade trancada. Pobrezinha.