terça-feira, 6 de maio de 2008

Invasão de privacidade

N E M C A B E discutir aqui sobre o quão abutres infelizes e sádicos são (ou somos) os jornalistas. Mas domingo pensei até onde deveria ir essa tal liberdade de imprensa. Não confundam com liberdade de expressão. Quando penso em liberdade de expressão, vejo muros pixados de indignação, vejo manifestações, vejo pessoas lutando por algo que lhes seja um ideal. Ainda que tudo isso seja fantasioso, está aí a liberdade de expressão caso queira se tornar real. Liberdade para que aconteça, mesmo que não aconteça.
Enfim. Estou falando da liberdade de imprensa. A liberdade de entrar na minha casa enquanto eu como minha pizza de domingo, com as pessoas de domingo, no friozinho do outono, com a pantufa de três dias, e, de repente, discretamente, estampar na tevê de canto um dos Crimes Mais Cruéis do Mundo. Perdi a fome. Meu coração ficou apertado.
Não é que eu seja egoísta. Mas eu não precisava passar por esse mal estar. Eu não queria passar por isso. Eu não queria saber que alguém seria capaz de ser tão mau. E agora? A filha e os filhos-netos do bandido, como estão?
Eles estão com as caras estampadas nos jornais, nas televisões. Será que algum dia poderiam recuperar o tempo perdido?
Estou indignada, e estou impotente. Assim como todo o resto da população. Que comenta pelos pontos de ônibus. Mas não vai mudar nada. Ninguém pode fazer nada, ninguém nunca pôde, ninguém nunca fez. E se alguém se sentir inspirado com essa história? E se ela se repetir porque alguém tinha potencial de crueldade equivalente, mas simplesmente nunca tinha pensado nisso?
É a mesma coisa com a menininha que foi jogada do prédio. A princípio, todos ficaram chocados. Depois, a notícia vendeu tanto, causou tanta curiosidade que hoje é uma piada! Como assim? Uma brutalidade daquelas foi tão banalizada que hoje virou piada, virou comunidade de orkut.
E a família, que sofreu todos os dias, todas as horas, que nunca via o sol durante 24 anos. Estão esfregando sua cicatriz nas lentes da câmera. Pra comover, pra chocar, pra vender. Olha só como esse mundo é cruel.
Nós, seres humanos, somos mesmo muito patéticos.

5 comentários:

Guilherme Gomes Ferreira disse...

"Nós, seres humanos, somos mesmo muito patéticos". Tens toda razão.

É patético gente que não tem o que fazer, criar fakes no orkut se fazendo passar pela mãe da Isabella e ainda aceitar recados de comoção e pêsames. Pateta criar correntes de vídeos de luto; pateta invadir a privacidade e o limite do outro, seja divulgando na imprensa ou apenas por curiosidade de vizinhos.

Quanta patetice.

=**

Insolúvel. disse...

não sei até que ponto os jornalistas fazem seu trabalho ou abusam de acontecimentos chocantes para vender mais.
Tudo é muito patético se for pensar..E fatos horríveis tornam-se um circo pra que o público não veja a sua vida tão patética como ela realmente é.

Mente Estranha disse...

ficou muito bom Lisiê!

liberdade de imprensa está sendo confundida com "libertinagem" de impresan, com ABUSO de impresa e de poder. boa parte da impresa se acostumou com o estatus de "Quarto Poder" e aprendeu a abusar muito bem disso. Outro dia ouvi no pondo de ônbus uma mulher dizendo pra filhina dela, que se chamava isabela, "para de fazer bagunça que agora tá na moda jogar isabelas da janela...", achei um tremendo absurdo, o fim da vida de uma criaça indefesa se tornar bicho papão.....

R.C. disse...

Ah! Somos patéticos mesmo. Porque é mais interessante ficar sabendo de um desastre do que de uma política de reconstrução que deu certo. E a imprensa usa esse lado frágil pra se promover, com "artigos exclusivos". Por mais que você não queira ver, não tem como! Alguém vai te contar que "estava cheio de fotógrafos na delagacia esperando os Nardoni como paparazzi".
Melhor mesmo é assistir novela do SBT!
=D

Beijo Lisiêêê!

R.C. disse...

Lisiê, eu posso colocar partes do seu texto no meu blog? Claro que vou dar os créditos.
Mas é, outra vez, o povo todo tá falando da vida de uma pessoa que sequer sabemos se gostaria mesmo disso.
Enfim.
"Eu não precisava saber disso".