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sábado, 27 de dezembro de 2008

As Palavras Que Você Não Vai Ler

A dor é o princípio de todo sentimento verdadeiro. Exemplificar é desnecessário, e eu sempre o faço. Mas, desta vez, vou poupar-lhes. Sinto apenas uma necessidade de dizer, sem significado, relevância ou objetivo. Apenas para soltar, desprender, deixar...
Deve ser apenas o princípio, e não o fundamento, e não a base. O bom é que a dor sempre vai embora - mesmo que temporariamente. E aí se prova: se tal sentimento é verdadeiro, permanece e existe independente dela. Se não, pode ir embora junto.
O que dói é não saber até onde vale a pena, qual é a profundidade do lago, até onde posso nadar sem me afogar. O fato é que quando a água está boa, a gente nada, nada, nada e esquece. Lá vou eu e minhas metáforas infames. A certa altura, volto à mim e me pergunto se devo ou não prosseguir. Não sei até onde a água bate.
Quando eu voltar à beira, as gotinhas vão escorrer do meu corpo e cair no chão, e, mesmo que demore e até lá eu sinta frio, cedo ou tarde estarei totalmente seca.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Paradoxo

Hoje minha incerteza quase vira decisão. Que, por ter sido por razoável tempo incerteza, digo quase. Porque pode voltar a ser incerteza, você sabe. Mas não entenda como um ato desesperado de quem pede pra ficar. Hoje não vou mais pedir nada. Hoje é meu paradoxo. Hoje é minha solidão.
Não é estranho nos sentirmos assim, quando tudo supostamente ia bem? Já cheguei a pensar que o efeito é parecido com o das drogas. Num dia, a alegria e excitação. No outro, a depressão. Porque a euforia "gasta" as endorfinas do cérebro, e como são muitas, todas ao mesmo tempo, acaba não sobrando pro dia seguinte. E aí, a depressão.
É, poderia ser assim. Como num dos milhares de filmes que assisti nas últimas quarenta e oito horas. Dizia "sem o amargo, o doce nunca é tão doce". Mas já provei do amargo e do doce, e apesar de não em tão variadas formas, eu posso dizer que os conheço. Pelo menos o bastante pra saber que todo esse amargo de hoje não é conseqüência do doce de ontem. Não foi tanto assim, não está proporcional.
E não vem ao caso discutirmos a proporcionalidade ou o equilíbrio ou a equivalência de ambos, se um é mais pesado que o outro e por isso vem em quantidades diferentes - não vem ao caso. A questão é o paradoxo.
Sinto-me numa chuva de canivetes onde não posso usar um guarda-chuva apropriado para me defender. Isso porque havia uma linha em nosso contrato que dizia que o risco de chover era muito improvável. Vim sem guarda-chuva e sem escudo.
Mas choveu. Confesso que arrumei um jeitinho de me defender, e no fim do dia, saí quase ilesa da chuva. Alguns arranhões e coisa e tal, mas, viva.
Confesso que depois da tempestade, pude ver o céu, e ele estava lindo. Ela serviu para que eu visse o céu que sempre esteve ali, mas nunca tão azul - ou talvez há tempos eu não olhava para ele. Bom é acabar esse post de modo otimista. Nada como boas e velhas conversas que nos fazem lembrar quem somos. Não vai ser um canivetinho qualquer pra me deter.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O Desnecessário

Parafraseando um texto que li por aí, "a gente logo vê quando alguém vai ser muito importante na nossa vida". Assim, logo, de bater o olho e entender sem entender. O tempo vira uma coisa louca, tudo acontece tão rápido, e, quando vai ver já passou tempo considerável para dizer, nossa, mas já? Parece que foi ontem! E foi assim, logo de cara, um dia qualquer, te quis trazer à minha vida.
Ontem poderia ter sido um dia qualquer. Tinha tudo pra ser. Quinta-feira, acordar cedo, trabalho, sono, café, desespero pós-almoço, conformismo no início da tarde. Tudo igual, tudo como sempre - até tocarem a campainha.
Tanto significado num pacote tão simples, mas tão sofisticado e tão lindo e tão-bom-gosto! A gente logo vê, e depois a gente vê que acertou. Nesses momentos inesperados e tensos, em que uma simples frase dentro de um cartão é capaz de te fazer tremer as pernas e ficar incrédulo, eufórico, besta.
Era desnecessário. Meu dia acabaria como os outros, e eu pensaria em você antes de dormir, como nos outros. Mas não. A diferença. Foi além. Fez aquilo que não era preciso, não era necessário. Fez o inesperado, o inescrupuloso, o chocante, o intenso. Arrancou de mim um sorriso e uma lágrima. Plantou em mim um sentimento inesquecível, que muito anseia germinar.
A gente logo vê, e, ah, que magnânima visão!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Acima da Carne

Hoje você já me tirou o sono. Mais uma vez. Vou dormir lá pelas tantas, e, quando acordar, não vou conseguir me mover. Mais uma vez. Não pelo sono acumulado, pelas poucas horas (que, como serão bem dormidas, de certo vão compensar mais que muitas mau, só que deixa essa conta pra lá), ou pelo despertador irritante.
Ao abrir minhas pálpebras pesadas e inconformadas (como sempre acontece quando são perturbadas antes do tempo) e tomar consciência de mim, do hoje e do agora, não vou conseguir me mover. Isso porque estarei exatamente como estou agora: mirando essas quatro paredes com as quais me deparo em quase todos os abrires de pálpebras já há alguns anos.
Todo esse tempo, e continuam as mesmas amarelo-esbranquiçadas paredes. Desculpem-me, paredes, se as constranjo com tamanha cara-de-pau, mas não é a vocês que eu vejo.
A vejo nas paredes, no chão, no chuveiro, naquilo que se repete e naquilo que se modifica. Principalmente nas músicas, nos sorrisos e nas paisagens. Se tal ausência, ainda pouca, já me causa isso, que ainda resta pra falar, imagine se a ausência tal se estender por mais dias e menos acessos!
Estou, então, imóvel, estagnada, imaginando, construindo, relembrando, e quando vejo, a hora passou. E, como uma adolescente irresponsável (que sou), disparo à próxima etapa. Onde vou me perder mais uma vez porque é certo que você vai estar e vai aparecer, talvez em mais uma dessas paredes geladas.
Atraso na segunda, dia um.
É que vim da lua, meu caro. Vim das nuvens. E é longe de lá àqui.
Essa semana, especialmente. Semana um. :)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Cara da Gaita

H O J E o meu dia começou diferente. Não porque eu escovei os dentes antes de tomar banho. Nem pela discussão de ontem que eu perdi.
Enquanto esperava o ônibus, um lindo casal de velhinhos passava na rua. De mãos dadas e com tênis de caminhada. Ele, com o cabelo mais branco que a camiseta. Ela, de cabelo curtinho e bem vermelho. Passeando, que nem dois namorados, coisa mais linda.
Sentei-me num dos primeiros bancos do ônibus, lá na frente, next to the roleta, do lado da janela, e fiquei olhando a cidade passar até que eu chegasse ao meu destino. Olhando, assim, sem ver, como sempre. As mesmas ruas, e o mesmo etc. Até que me levanto quando nos aproximamos do ponto onde tenho que descer. E, na jornada entre meu banco e a porta (lá atrás), ouço uma musiquinha. Não dou muita bola até ver de onde vem o som.
Um senhor com cara de doidinho, os olhos vidrados, tocando gaita. Dentro do ônibus. As pessoas estavam meio apreensivas (o que será que ele vai fazer depois?), mas eu fiquei com vontade de dar uma dançadinha, apontando pra ele, e dizendo: é isso aí, cara! Valeu!
Não só dar uma dançadinha ali no ônibus. Deu vontade de nem descer, de ficar ali, de ir com ele pra festinha onde ele ia tocar em plena quinta-feira de manhã.
Mas é isso que nos separa. Ele quis tocar, e tocou. Eu quis dançar, mas fingi que nem vi, como, acredito, o fariam (e o fizeram) a maioria das pessoas. Fingi que ele nem deu uma corzinha a mais no meu dia. E, com uma trilha sonora à melhor cena alegre de filme brasileiro, desci do ônibus me sentindo o próprio Matheus Nachtergaele.
É isso aí, cara! Valeu!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O Silêncio das Estrelas

E U estou,
sinceramente,
literalmente,
profundamente,
CANSADA
de sentir Saudades.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Ser ou não ser

S U A O U de ninguém;
Quisera eu escutar meu coração, mas ele chama pelo nome tão velho (daquele fantasma que te comentei outro dia). E só chama por chamar, não porque quer sentir suas batidas (peito a peito) novamente. Assim fosse, só, o meu coração dispararia com o vulto fantasmagórico (ou algo que o valha) que assombra o meu espelho (o do banheiro, que guarda a escova de dentes verde que ainda uso, a que comprei pra você e já pertenceu à sua boca).
Não. Ele dispara contra o sol (forte, por acaso) e me treme as pernas com o sabor das pitangas caídas na avenida Paraná. Mas não pelo sol, nem pelas pitangas (nem comer pitangas já comi). As frutinhas não bastam, nem o calor, nem os militares de regata branca que demoram quase mais que os carros pro sinal abrir, e gritam e assustam prometendo segurança. Ah, tão inseguros, tão iguais, tão fardados, tão pais de família classe-média!
Tenho essa mania de olhar o celular, fingindo querer saber as horas, mas na verdade confirmando que ninguém se lembrou de mim nos últimos setecentos minutos (às vezes, mais). Já tive relógio, mas quebrou, assim como o tempo.
Agonia enquanto você não volta, que não sei pra onde foi, nem se volta. Mas vou esperar.
Hoje.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Sweet

I ' M G E T T I N G so stupid, so old fashioned, but I don't care at all 'cuz you held my hand and then I just didn't want to be anywhere else in the world.

domingo, 14 de setembro de 2008

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terça-feira, 9 de setembro de 2008

O Ponto Culiminante (pt. I)


F O I C O M a garganta navalhada de mágoas que, pela primeira vez, me virou as costas e saiu. Fiquei onde estava, acho que permaneci de queixo caído por alguns segundos. Não por estar surpreendida. Aliás, eu já esperava isso há algum tempo. E foram as mesmas cenas, só que com outro personagem. Fiquei onde estava. Ainda estou onde fiquei. Boquiaberta.
Chegou então, o Ponto Culminante. Aquele sobre o qual tanto tentei te alertar. Isso está ficando perigoso, eu disse, e você riu, me provocando. Perigo! Agora não posso pensar em você.
Estou sentada, então, no ponto culminante. Exatamente do jeito e no local onde você me deixou. Comecei a fazer essas anotações sem saber bem onde ia chegar. Apenas para dizer que o ponto culminante não me cutuca pois estou boquiaberta e inatingível. E pra dizer que esse é o momento de uma decisão drástica.
Sempre fui de fazer dramas, e com você não poderia ser diferente. Eu sabia que não ia ficar tudo assim tão bem como era. E é engraçado eu nunca ter feito anotações sobre as maravilhas e bons momentos assim, tão didaticamente, e tão factual.
Faz algumas horas e eu não sei se vou ou se fico. Não devia ter brincado, não devia mesmo. Estou arrependida - e isso é tudo o que eu não devia estar. Eu deveria estar em outra, passeando de carro com os cabelos ao vento, indo para uma Aventura Qualquer, vendo Sessão da Tarde ou vomitando no banheiro do bar.
Ahhh, tão bom-demais-pra-ser-verdade, que eu fiz questão de deixar ruim, só pra não fugir à regra! Gosto da nossa coisa sem regras, e gosto mais do que deveria gostar. E eu falei pra você que era tão idiota ficar se policiando! Gosto e não entendo toda a sua paciência e disposição!
Céus, me vacinem! Estou apegada. E, estranhamente, com um nó na garganta desde a noite passada. (e agora, ou o Ponto Culmina para o Fim, ou para a parte II)

outro grande erro da minha matemática: ouvir músicas de amor.

Eu quero a diferença que me faz te olhar de frente.
Deixa eu te levar. Não há razão e nem motivo pra explicar que eu te completo e que você vai me bastar.
(Tolerância, Ana Carolina)

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Um Post Babaca

C O M O J Á diz o título, e, pra ser ainda mais babaca, vou usar da redundância (mais uma vez, pois já a usei) e avisá-los (o que já foi avisado): hoje vou fazer um post babaca.
Babaca. Idiota.
Substantivos assim, comuns de dois gêneros. Servem para ele, o post. E para mim, a postadora (neologismo idiota). Pois penso que é isso o que você pensa sobre mim. Que sou babaca, idiota e burra. Estou repetindo não para economizar vocabulário, mas por não ter mais vocabulário para me expressar.
Assim, simplória, sincera e babaca. Hoje estou tão humana. Sinto inveja e sinto raiva. De várias coisas, sobre vários rostos. Daquilo que eu deixei morrer. Daquilo que eu me transformei. De mulher super interessante e cheia de mistérios (inclusive os da carne) para ensinar, a uma qualquer-coisa aspirante à alguma imitação, de vocabulário curto, fala pobre, ambigüidades quase sem vírgulas e sem conteúdo.
E, se fosse isso, só pra cavar o fundo do poço (onde me encontro nessas linhas) ainda mais fundo, eu te atestaria minha superficialidade dizendo mas eu emagreci e até pintei o cabelo! Falaria com tanta convicção, com aquele meu sorrisinho irritante e as mãos espalmadas indicando que isso é óbvio, que confie em mim (que paro nessa posição com a boca aberta). Mãos espalmadas com unhas mal-cortadas. Talvez seja isso. Talvez eu devesse fazer as unhas, talvez.
Ah, esse mundão (!) e suas injustiças. Tudo o que tive em mãos (inclusive você, que deve querer se esquecer disso) deve ter sido única e meramente um fruto do acaso, da sorte, de um vento favorável que me fez fechar o olho direito porque estava contra o sol, e te fez achar tal gesto charmoso. Sei lá. Só não entendo porque foi que tiraram de mim essa sorte e doaram para eles, que tanto fedem e nem sabem fazer Pen Spinning!

Talvez, se não fosse o chips, eu teria evitado as baratas. E se eu tivesse sentado mais para trás, eu teria evitado o cocô da pomba. (b-a-b-a-c-a!)

sábado, 30 de agosto de 2008

Esqueça

A S S I M É Q U E vão ser todos os frios todas as escuridões e toda a solidão? Meu pesado casaco vermelho nunca vai me dar o calor que eu preciso nesta noite e em todas as próximas? Será mesmo que seus braços o roubaram (meu calor) e, assim sendo, hei de padecer sentindo frio se eu não estiver sentindo você?
Não é por nada, mas hoje eu daria o meu casaco vermelho e todas as roupas do meu guarda-roupa e até as do meu corpo para poder ser esquentada pelo teu abraço que tanta falta me faz. O teu abraço, e eu faria um doce para comermos enquanto assistimos algum filme qualquer, nunca importou qual fosse. Só me importava a brincadeira de nossas mãos debaixo do edredon amarelo, que também me tem feito tão fria ultimamente.
Tua imagem me vem tão falha e fraca, está sumindo da minha cabeça. Evito ver fotos e até lembrá-la, mas as noites como hoje me provam que eu nunca mais fui eu sem você, e que, mesmo sem rumo ainda sou sua, sem rumo e nua, mas nem todo o meu enxoval te traria de volta pra mim.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Invisível

A C H O Q U E se foram com o vento. Esqueceram de me avisar. Talvez haja algo, aqui, nesse espaço de tempo, vindo para aniquilar a raça humana. E eu fiquei. Eu fiquei porque não sei o que esperar. Porque eu não tive a mesma pressa de partir. Porque eu nem soube que me deixariam aqui. Não restaram marcas, fotos, nem pó. Se foram como vieram: rápidos, indestrutíveis.
Intensos.
Perceptíveis.
Perturbadores.
Foram e levaram meus mais preciosos bens. E não foi de mim que quiseram fugir. Antes fosse. Antes eu tivesse a certeza de que estar sozinha aqui me levaria à auto-destruição semi-instantânea que serviria como uma libertação da humanidade. Mas não sou uma ameaça.
Fui esquecida e algo está por vir.
Algo que eu não sei e não tenho a quem perguntar.
Passo esses meus tempos a desejar que esse algo venha logo e me salve desse tempo desse tempo desse tempo que me mata (mas não mata) mais.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Caminhos Cruzados

V O U U T I L I Z A R as palavras de outra pessoa porque nesse momento eu estou meio que feliz demais e assim me fogem as minhas. Não porque a felicidade não seja um sentimento digno de ser escrito. Aliás, só estou aqui escrevendo porque a felicidade merece que não sejam apenas palavras alheias. É que, junto com essa alegria, estou também ansiosa, eufórica e impaciente, e, isso sim, faz com que as idéias só fiquem na minha mente e eu não consiga parar e me concentrar o suficiente para deixá-las bonitas e verdadeiras. Portanto, vou utilizar de João Bosco porque ele, aqui, está falando por mim.



Quando um coração que está cansado de sofrer
Encontra um coração também cansado de sofrer
É tempo de se pensar
Que o amor pode, de repente, chegar
Quando existe alguém, que tem saudade de alguém
E esse outro alguém não entender
Deixe esse novo amor chegar
Mesmo que depois
Seja imprescindível chorar
Que tolo fui eu
Que, em vão, tentei raciocinar
Nas coisas do amor
Que ninguém pode explicar
Vem, nós dois vamos tentar
Só um novo amor pode a saudade apagar

Deixa esse novo amor ...



(...) Pois minha dúvida se esvaiu! Agora sei que eu acredito em destino! Não foi em vão que abri aquela porta bem naquele momento, e isso faz com que minha medíocre vida, enfim, tenha algum sentido. Que mesmo quando pareça inútil, no final vai ser explicado.

Now you are inside my head.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Nostalgia pt. I

C H E G U E I E M casa hoje, e, com o barulho de minha chegada, que é estrondosa, alguém logo gritou:
- Vem ver! Vem ver!
Elas estavam sorridentes. É engraçado como a nostalgia causa esse sentimento de felicidade. Uns sete álbuns em cima do balcão, fotos antigas espalhadas sobre a mesa. E o sorriso nos lábios delas, ao relembrar de tantos anos atrás. Tinha até uma minha, que é clássica. Eu, no sofá, com um ano de idade, vestida de Papai Noel nesse calor de Foz do Iguaçu, pra não dizer palavrão, ou, calor da porra. Cruel, não?
As mais recentes eram de 2004, ano em que, se não me engano, compraram a tão obsecada Câmera Digital. São quatro anos de recordações que estão estocadas e entulhadas aqui nesse computador de onde vos escrevo. Leia-se que esta minha querida e amada máquina que ainda minhas angústias guarda, está também estocada e entulhada de vírus. Ou seja, no vocabulário popular, os 41,2 por 15,5 por 42 centímetros e quase seis quilos do meu gabinete estão sendo cruelmente disputados pelas fotos e vírus, numa batalha injusta e sem mediador, sem juiz.

(...)

domingo, 22 de junho de 2008

Um pouco de verdade

Q U E S E se foda a literatura, a música, o cinema. Que se fodam todas as artes, da primeira a última. E, principalmente, que se fodam todos aqueles que um dia inventaram glamour nas cenas de loucura. Que se foda Paulo Coelho e sua Verônika que decide morrer. Até a Pitty, que se foda, com aquele Anacrônico de camisa-de-força.
Isso não é glamouroso.
Isso não é engraçado.
Já fui como vocês, que via beleza e poesia em remédios de tarja-preta, em terapias de choque e em vândalos descabelados gritando dialetos indecifráveis.
Mas isso não é bonito.
Isso não é poético.
Isso é triste.
Isso é doloroso.
E dói pra caramba.
Isso não me traz inspiração.
Eu não vou escrever um texto bonito. Eu não vou usar palavras difíceis. Só escrevo porque isso aqui faz algum sentido pra mim. Não é aqui onde guardo alguns dos meus sentimentos? Pois também esse quis guardar. É chato ler tanta gente se achando doente quando na verdade não é. Tanta gente que nem sabe como isso dói.
Não é brincadeira, dói de verdade. Uma dor que me corta o coração (não vou nem fugir dos clichês), ver você assim e não saber o que fazer. Eu queria não me importar, eu queria saber virar as costas e deixar passar, me distrair. Mas eu não consigo. Dói.
Já estou fraca demais pra agüentar você sumindo, você surtando, você nunca-bem. Como eu queria que fosse tudo normal. Como eu queria que ficasse tudo calmo.
Mas é o telefone tocando e me ameaçando, dizendo coisas feias que eu nunca queria ouvir da sua boca. Eu não consigo mais. Esse peso é demais pra eu carregar. É tão-mais-que-eu, que já aprendi que o único jeito de manter um pouco estável é eu deixando de ser eu pra ser você.
Dói mais ainda saber que não é culpa sua. Que, por você, poderíamos ficar bem. Talvez fosse até a sua vontade. Se não fosse essa coisa que te domina e te faz me machucar. Adianta procurar ajuda? Adianta escrever?
Sei que também tenho culpa. Mas foram minhas fraquezas, foi o meu desequilibrar com o peso que carrego. É tão doloroso te olhar mas não te ver. É tão doloroso te olhar e não te reconhecer.
Eu queria que nossa relação não fosse doente psicótica ego-dependente. Eu queria que fôssemos de andar de mãos dadas na grama, de abraçar pra aproveitar o frio, de esperar o sol se pôr e de ter tanta intimidade pra ficarmos dançando na cozinha enquanto esperamos o pão de queijo assar.
Eu queria que, por uma vez, seu sorriso não viesse com sarcasmo. Eu queria que, por uma vez, o nosso dia terminasse bem.

quinta-feira, 12 de junho de 2008



E R A U M A tortura ver seus dedos deslizando pelo violão. Eu via um gesto obsceno - e você o prosseguia ali, no palco, com todo mundo vendo. Eu te avisei. Eu gritei e falei cuidado com seu zíper ele pode abrir, mas você não me ouviu. Você não ouviu ninguém. Você permaneceu lá, intocável, como se estivesse numa altura superior a nós, como se nada pudesse te atingir. E um dia você foi assim comigo. Eu lembro. E agora é o violão que sente o seu arrepio. Fico no lugar onde você não me vê, onde não vês ninguém. Pois está acima de todos, e vai continuar assim até o concerto acabar e o violão suspirar o seu orgasmo pleno. Quem dera.

domingo, 11 de maio de 2008

Garrancho

E U J Á P A S S E I daquela fase em que eu achava que só poderia ser útil à noite. Que eu deveria estudar à noite, trabalhar à noite, porque durante o dia eu não conseguiria produzir. De fato, ainda tenho a tendência de ser mais intelectualmente ativa à noite. Mas descobri o café e o jornal das manhãs. E descobri que pores e nasceres do sol me angustiam porque são o espectro físico que representa o fim em sua mais natural forma. O fim do dia, o fim da noite. É a hora que termina, a hora de ir embora, é quando as chances acabam, é a hora de desistir. E não há nada que a gente possa fazer quando o sol está indo embora - ele está longe demais.
Porém, a noite ainda me fascina. As luzes da noite. Pergunto-me se mais alguém tem essa incrível sensação de noite. Não há como descrevê-la. Poderia dizer que é como uma sensação de vazio que não fere. Mas não é bem assim. É sensação de noite. É do glamour da solidão, dos vícios, das luzes. Será que alguém sente o que eu sinto sobre isso? Será que alguém vê o que eu vejo?
Cada noite me dá uma idéia. E sou cada uma delas, com seus formatos exagerados e espalhafatosos - as sou. Só naquele momento, talvez, mas sou e elas são verdade. Penso-as e as trabalho. Algumas vezes, transcrevo-as, mas quando chega o final do papel, exatamente na hora do ponto final, quando o sol começa a aparecer e nos estressar, elas não fazem mais sentido, e nem eu entendo o que escrevi.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Acima do chão

T A L V E Z, tudo poderia ficar exatamente como está. Imóvel, intacto. Bem como o meu estado de euforia. Que vivia de se repetir de algumas frações de segundos subjetivas. Completamente subjetivas. Eram segundos como outros quaisquer se fosse outro olhar qualquer, outro vidro qualquer. Que provavelmente nem quiseram dizer nada, mas meus sentidos quiseram escutar. E por aquilo não ser o que gostaria que fosse mas talvez querer dizer algo que eu gostaria de ter ouvido mas de fato não ouvi, senti um arrepio. E eu conseguia fabricá-lo toda vez que me lembrava da cena. Agora tenho andado acima do chão, cantando com os passarinhos e sorrindo para o sol e a chuva, porque eles não me queimam nem congelam.
Poderia ficar tudo assim, exatamente como está, com um reprodutor de boas sensações que meu corpo produziu sem me consultar, apenas respondendo a um estímulo subliminar.
Sei que não vai ficar assim, mas vou aproveitar enquanto é tempo e vou sorrir para o cobrador do ônibus.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Pequeno tutorial de Como As Coisas São

V E N H O devagar, onde há pessoas com humores refinados e pensamentos quadrados. Todos me cativam, todos me fascinam de algum jeito, absolutamente todos, nem que seja só por um momento. Eu poderia dizer que sou uma completamente apaixonada por pessoas, mas aí eu estaria mentindo. Não sou. De tanto elas me apaixonarem, elas, as pessoas, acabam fazendo com que eu veja demais, que eu saiba demais. E, de quanto em quanto, elas ficam tão iguais, tão repetitivas, tão sem-forma e sem-graça. Acontece que elas me acometem de sensações conflitantes, que me impulsionam e me fazem me sentir viva. Coloco algumas em pedestais. Não posso tocá-las. Lá elas ficam, inatingíveis, irreais, desumanas. Mas perfeitas.
O resto, a grande maioria que fica comigo no chão, é cheia de defeitos. E eu conheço cada um dos defeitos e seus efeitos. Isso às vezes me enlouquece. Esses exemplares da espécie humana parecem tão pequenos, tão vazios. Conheço - e isso eu posso dizer que é fato - todas as intenções. Quando alguém sorri, eu sei o que está pensando. Eu só sei. E, por saber, e saber que são tantas trivialidades, parece que o mundo, com tantas cabeças desproporcionais, não passa de um depósito de almas frias - que não pensam por si só. Elas só reproduzem incansavelmente os mesmos velhos discursos, as mesmas facetas, os mesmos joguinhos de competição, e até os mesmos jeitos de gesticular com os braços e as sobrancelhas.
A pior parte não é essa. A pior parte é que eu só sei, só sinto saber o que sinto que sei porque, no mínimo, eu conheço o sistema e sei como ele funciona. Porque sou parte dele, sou também ele. E, aos olhos dos outros, também devo ser previsível e sem cor. E você provavelmente responderia sim para essa minha pergunta: você também já não sentiu isso antes?

Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes.

A parte boa é que, eu, como ser humano sem graça e sem brilho nos olhos, como parte da multidão, também tenho o direito de errar. E, de vez em quando, a vida me surpreende. Como quando acontecem aqueles turbilhões associados a Platão. Foi de arrepiar e tremer quando me olhou nos olhos e disse: você