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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Ser ou não ser

S U A O U de ninguém;
Quisera eu escutar meu coração, mas ele chama pelo nome tão velho (daquele fantasma que te comentei outro dia). E só chama por chamar, não porque quer sentir suas batidas (peito a peito) novamente. Assim fosse, só, o meu coração dispararia com o vulto fantasmagórico (ou algo que o valha) que assombra o meu espelho (o do banheiro, que guarda a escova de dentes verde que ainda uso, a que comprei pra você e já pertenceu à sua boca).
Não. Ele dispara contra o sol (forte, por acaso) e me treme as pernas com o sabor das pitangas caídas na avenida Paraná. Mas não pelo sol, nem pelas pitangas (nem comer pitangas já comi). As frutinhas não bastam, nem o calor, nem os militares de regata branca que demoram quase mais que os carros pro sinal abrir, e gritam e assustam prometendo segurança. Ah, tão inseguros, tão iguais, tão fardados, tão pais de família classe-média!
Tenho essa mania de olhar o celular, fingindo querer saber as horas, mas na verdade confirmando que ninguém se lembrou de mim nos últimos setecentos minutos (às vezes, mais). Já tive relógio, mas quebrou, assim como o tempo.
Agonia enquanto você não volta, que não sei pra onde foi, nem se volta. Mas vou esperar.
Hoje.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Invisível

A C H O Q U E se foram com o vento. Esqueceram de me avisar. Talvez haja algo, aqui, nesse espaço de tempo, vindo para aniquilar a raça humana. E eu fiquei. Eu fiquei porque não sei o que esperar. Porque eu não tive a mesma pressa de partir. Porque eu nem soube que me deixariam aqui. Não restaram marcas, fotos, nem pó. Se foram como vieram: rápidos, indestrutíveis.
Intensos.
Perceptíveis.
Perturbadores.
Foram e levaram meus mais preciosos bens. E não foi de mim que quiseram fugir. Antes fosse. Antes eu tivesse a certeza de que estar sozinha aqui me levaria à auto-destruição semi-instantânea que serviria como uma libertação da humanidade. Mas não sou uma ameaça.
Fui esquecida e algo está por vir.
Algo que eu não sei e não tenho a quem perguntar.
Passo esses meus tempos a desejar que esse algo venha logo e me salve desse tempo desse tempo desse tempo que me mata (mas não mata) mais.

domingo, 11 de maio de 2008

Garrancho

E U J Á P A S S E I daquela fase em que eu achava que só poderia ser útil à noite. Que eu deveria estudar à noite, trabalhar à noite, porque durante o dia eu não conseguiria produzir. De fato, ainda tenho a tendência de ser mais intelectualmente ativa à noite. Mas descobri o café e o jornal das manhãs. E descobri que pores e nasceres do sol me angustiam porque são o espectro físico que representa o fim em sua mais natural forma. O fim do dia, o fim da noite. É a hora que termina, a hora de ir embora, é quando as chances acabam, é a hora de desistir. E não há nada que a gente possa fazer quando o sol está indo embora - ele está longe demais.
Porém, a noite ainda me fascina. As luzes da noite. Pergunto-me se mais alguém tem essa incrível sensação de noite. Não há como descrevê-la. Poderia dizer que é como uma sensação de vazio que não fere. Mas não é bem assim. É sensação de noite. É do glamour da solidão, dos vícios, das luzes. Será que alguém sente o que eu sinto sobre isso? Será que alguém vê o que eu vejo?
Cada noite me dá uma idéia. E sou cada uma delas, com seus formatos exagerados e espalhafatosos - as sou. Só naquele momento, talvez, mas sou e elas são verdade. Penso-as e as trabalho. Algumas vezes, transcrevo-as, mas quando chega o final do papel, exatamente na hora do ponto final, quando o sol começa a aparecer e nos estressar, elas não fazem mais sentido, e nem eu entendo o que escrevi.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Gala

HO J E nós vamos nos encontrar na incidência do asfalto solar, onde as feras se chocam, se constragem, se cospem, se comem. Não era isso que você queria?

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O Si-Mesmo

U M C O N F R O N T O inevitável, esse nosso com o Si-Mesmo. Por que o Si-Mesmo é tão cruel? Primeiro, ele te deixa nua. É violento e impaciente no processo do despir-se. Basta olhar nos olhos do Si-Mesmo, que lá está você, nua. Ele não precisa chegar perto, nem encostar pra perceber que você está desconfortável. E é exatamente essa a intensão dele: te deixar desconfortável. Porque, desse modo, você acaba revelando seus medos. É olhando nos seus olhos que ele arranca a sua roupa e suas farsas. E então você fica, nua e sem máscaras. Sem nada pra esconder. Despida, descoberta, encurralada. O Si-Mesmo some e te deixa. Só você e a sua verdade. E a verdade sobre Si-Mesmo é a pior de todas.