BárbaRa DorMia TaRde Pra NÃO Ter Que AcoRdar.
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sábado, 3 de janeiro de 2009
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Isso ou As coisas que não dão certo
N O C O M E ÇO, a gente ignora, vai empurrando com a barriga, se faz de cego, de surdo, de burro. Sempre esperando que isso passe e se resolva sozinho. Mas isso não acontece, né? Então, chega uma hora que algo precisa acontecer. Talvez a gente ganhe intimidade pra reclamar e dizer eu não gosto disso disso e disso, e ouvir também os eu não gosto disso disso e disso. Um abraço e um alívio - acho que agora as coisas vão caminhar para nós.
Alguns cumprem com a promessa e evitam o isso isso e isso. Mas, sem perceber, depois de um tempo, começa tudo outra vez (ou são novos os issos issos e issos). Ou nem se preocupam em tentar mudar, continua tudo igual. E os inhos vão ficando ões, os issinhos vão ficando issões, e quando a gente vê tá gritando, surtando no meio da rua, e quebrando tudo.
Uma crise. O castelinho de sonhos desmoronou e você foi o culpado (Culpado!), como pôde? Não, o culpado foi você com todos os seus pontos nos is. Antes ficasse quieto.
Mas não, não conseguem ficar longe um do outro, e acabam se procurando por aí. Vamos mudar. Vamos começar do zero.
E lá vão eles, tudo outra vez.
Detesto ser humano e tão previsível!
Mas é que a tua ausência é o que me dói no calcanhar.
Alguns cumprem com a promessa e evitam o isso isso e isso. Mas, sem perceber, depois de um tempo, começa tudo outra vez (ou são novos os issos issos e issos). Ou nem se preocupam em tentar mudar, continua tudo igual. E os inhos vão ficando ões, os issinhos vão ficando issões, e quando a gente vê tá gritando, surtando no meio da rua, e quebrando tudo.
Uma crise. O castelinho de sonhos desmoronou e você foi o culpado (Culpado!), como pôde? Não, o culpado foi você com todos os seus pontos nos is. Antes ficasse quieto.
Mas não, não conseguem ficar longe um do outro, e acabam se procurando por aí. Vamos mudar. Vamos começar do zero.
E lá vão eles, tudo outra vez.
Detesto ser humano e tão previsível!
Mas é que a tua ausência é o que me dói no calcanhar.
domingo, 6 de julho de 2008
Química
- P O D E E N T R A R, fique à vontade. - falou assim, automaticamente.
Sentou-se e repousou a bolsa branca de tecido no colo, sem saber direito o que vinha.
- Chá?
- Não, obrigada...
Ofereceu só pra ser anfitrião, pois eram coisas que anfitriões deveriam fazer. Virou-se para não ser observado nos olhos, e, lembrando que não tinha nada a perder, resolveu arriscar:
- Vodka?
- Por favor!
Não era comum tomarem álcool nesses tipos de reuniões. Apesar das roupas, perceberam-se não-comuns e sorriram disfarçadamente, por dentro.
Não obstante, foi naquele momento que se descobriram para o resto da vida, e além.
Sentou-se e repousou a bolsa branca de tecido no colo, sem saber direito o que vinha.
- Chá?
- Não, obrigada...
Ofereceu só pra ser anfitrião, pois eram coisas que anfitriões deveriam fazer. Virou-se para não ser observado nos olhos, e, lembrando que não tinha nada a perder, resolveu arriscar:
- Vodka?
- Por favor!
Não era comum tomarem álcool nesses tipos de reuniões. Apesar das roupas, perceberam-se não-comuns e sorriram disfarçadamente, por dentro.
Não obstante, foi naquele momento que se descobriram para o resto da vida, e além.
domingo, 13 de abril de 2008
Dulcinéia que morreu de facada nas costas
- S A B E quem morreu, Zé? - perguntou, tomando um gole do café.
- Sei não, quem?
- Dulcinéia.
Zé nem perguntou de quê nem nada. Resmungou um "hum" e sentou para comer o queijo. No jornal, tinha uma notinha. Dulcinéia morreu de morte morrida, mas foi de facada nas costas neste dia 09 de junho de 1967.
Dulce era uma estrela, mas, debaixo da terra virou nota de jornal. Dulce tinha tudo pra ser tudo. Cantava bonito, tocava violão e tinha até cabelo liso. Mas levou uma facada daqui, uma facada dali e nunca mais cantou. Todo mundo chegava e, ao invés do tradicional tapinha nas costas, metia-lhe a faca com força e dizia seja bem-vinda. Mas Dulce foi descobrindo, era esperta. Cortou um por um. Arrancou cada faca das costas e riscou da lista de amigos. A lista foi ficando tão grande de nomes cortados, que Dulce parou de listar. Nos últimos dias de sua vida já tinha tanta facada nas costas que nem tinha espaço pra mais. E não falava com ninguém há mais de dois anos porque ficou com tanto medo das pessoas que preferiu ser sozinha. Ela mesma se esfaqueava de vez em quando para lembrar-se de quem era. Mas o violão, ela nunca mais pegou.
- Sei não, quem?
- Dulcinéia.
Zé nem perguntou de quê nem nada. Resmungou um "hum" e sentou para comer o queijo. No jornal, tinha uma notinha. Dulcinéia morreu de morte morrida, mas foi de facada nas costas neste dia 09 de junho de 1967.
Dulce era uma estrela, mas, debaixo da terra virou nota de jornal. Dulce tinha tudo pra ser tudo. Cantava bonito, tocava violão e tinha até cabelo liso. Mas levou uma facada daqui, uma facada dali e nunca mais cantou. Todo mundo chegava e, ao invés do tradicional tapinha nas costas, metia-lhe a faca com força e dizia seja bem-vinda. Mas Dulce foi descobrindo, era esperta. Cortou um por um. Arrancou cada faca das costas e riscou da lista de amigos. A lista foi ficando tão grande de nomes cortados, que Dulce parou de listar. Nos últimos dias de sua vida já tinha tanta facada nas costas que nem tinha espaço pra mais. E não falava com ninguém há mais de dois anos porque ficou com tanto medo das pessoas que preferiu ser sozinha. Ela mesma se esfaqueava de vez em quando para lembrar-se de quem era. Mas o violão, ela nunca mais pegou.
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Onde toda a beleza do mundo se esconde
"Longe, lá de longe
De onde toda a beleza do mundo se esconde
Cante, para ontem
Uma voz que se espanda e suspenda esse instante"
N O T A - S E que esteve lá longe, no lugar onde toda a beleza do mundo se esconde. Ela caminha flutuando, como se ainda estivesse lá. Mas não está. Não está porque nós conseguimos vê-la. E lá é longe. Se lá estivesse, não conseguiríamos, nem com uma lupa. Entendo que a lembrança ainda a faz flutuar vez ou outra. E até engana, ilude. Sei bem como é isso porque eu também já estive lá. E já a levei lá. Foi isso o que aconteceu. Suguei dela toda a beleza e vitalidade e joguei tudo lá. Para que eu pudesse voltar sempre que eu quisesse. E, lá, encontrasse essa beleza e vitalidade intacta. Mas não sou assim, tão cruel a ponto de roubar-lhe a alma. Devolvi.
Contudo, alguém teve a mesma idéia que eu. Só que não devolveu. Deixou lá, e, assim, virou seu deus. Agora, a leva lá de vez em nunca. E quando ela vai, fica tão feliz que chega a dar dó. Fica feliz e cega, pensando que está lá longe, onde toda a beleza do mundo se esconde. Que se tranca e espera sonhando que seu deus a leve. Sempre impaciente e ansiosa pelo dia em que puder ir lá de novo, e de novo. Mas fingindo estar calma. Porque o contrário causaria a ira do deus e o castigo seria mais uma eternidade trancada. Pobrezinha.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Justine e o Fim do Mundo
J U S T I N E pegou o revólver, puxou o gatilho e estourou os miolos. Foram miolos voando para tudo quanto era lugar, enquanto era tempo. Explodiram que nem pipoca mas nem sequer um corvo teve coragem de comer.
Justine foi embora do mundo e ninguém sentiu falta dela. Na verdade, o patrão ficou puto porque ela se foi sem deixar uma substituta. E o namorado ficou indignado porque ele tinha feito uma dívida gigante por causa dela, aquela cadela. O que ele não lembra é que, no último mês, ele não ouviu o que ela tinha pra dizer, e olhou pros lados quando ela queria consertar o "nós dois". Logo ela, ela, que vivia dizendo para ele não cometer nenhuma loucura. Ela que foi a louca. A Louca se foi. E, como Eleanor Rigby, deixou o mundo em silêncio, do mesmo jeito que viveu a curta vida. Sempre em silêncio, de fininho, sutilmente. O pior de tudo é que partir foi o melhor que ela fez, coitada.
Justine foi embora do mundo e ninguém sentiu falta dela. Na verdade, o patrão ficou puto porque ela se foi sem deixar uma substituta. E o namorado ficou indignado porque ele tinha feito uma dívida gigante por causa dela, aquela cadela. O que ele não lembra é que, no último mês, ele não ouviu o que ela tinha pra dizer, e olhou pros lados quando ela queria consertar o "nós dois". Logo ela, ela, que vivia dizendo para ele não cometer nenhuma loucura. Ela que foi a louca. A Louca se foi. E, como Eleanor Rigby, deixou o mundo em silêncio, do mesmo jeito que viveu a curta vida. Sempre em silêncio, de fininho, sutilmente. O pior de tudo é que partir foi o melhor que ela fez, coitada.
domingo, 17 de fevereiro de 2008
A menina que não dizia novidades
C H E G A V A o fim do dia e ela olhou pela janela do carro que não tinha gotas.
- Hoje não choveu.
Ninguém deu atenção, um lá respondeu com sarcasmo e continuaram suando e tomando suas coca-colas. Marcela começou a contar uma fofoca sobre um ator da televisão que não veriam pessoalmente nem em 100 anos, mas tanto fazia parte daquele fim de tarde que deixava Helen enojada. Helen, a menina desinformada. Helen, a menina que não dizia novidades. Fingiu estar concentrada no vidro do carro pra tentar não ouvir a mesma ladainha. Gostava de viver assim, meio no pretérito imperfeito. E, sim, pra ela importava se havia chovido ou não. Porque tinha planos. Iria pela rua 7 ao invés de ir pela 11, como sempre vai, caso chovesse. E, talvez, no caminho da rua 7 comprasse um doce de Pelotas, que não comia desde que papai ficou diabético.
A chuva podia deixá-la resfriada, e ela teria que passar a madrugada "assistindo filme velho na tevê", como diria a moça da propaganda do Doril. Talvez conseguisse escrever um poema ou sentiria uma coragem revolucionária para comprar flores e se entregar.
Mas, talvez por infortúnio, naquele dia não choveu.
- Hoje não choveu.
Ninguém deu atenção, um lá respondeu com sarcasmo e continuaram suando e tomando suas coca-colas. Marcela começou a contar uma fofoca sobre um ator da televisão que não veriam pessoalmente nem em 100 anos, mas tanto fazia parte daquele fim de tarde que deixava Helen enojada. Helen, a menina desinformada. Helen, a menina que não dizia novidades. Fingiu estar concentrada no vidro do carro pra tentar não ouvir a mesma ladainha. Gostava de viver assim, meio no pretérito imperfeito. E, sim, pra ela importava se havia chovido ou não. Porque tinha planos. Iria pela rua 7 ao invés de ir pela 11, como sempre vai, caso chovesse. E, talvez, no caminho da rua 7 comprasse um doce de Pelotas, que não comia desde que papai ficou diabético.
A chuva podia deixá-la resfriada, e ela teria que passar a madrugada "assistindo filme velho na tevê", como diria a moça da propaganda do Doril. Talvez conseguisse escrever um poema ou sentiria uma coragem revolucionária para comprar flores e se entregar.
Mas, talvez por infortúnio, naquele dia não choveu.
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