sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O Desnecessário

Parafraseando um texto que li por aí, "a gente logo vê quando alguém vai ser muito importante na nossa vida". Assim, logo, de bater o olho e entender sem entender. O tempo vira uma coisa louca, tudo acontece tão rápido, e, quando vai ver já passou tempo considerável para dizer, nossa, mas já? Parece que foi ontem! E foi assim, logo de cara, um dia qualquer, te quis trazer à minha vida.
Ontem poderia ter sido um dia qualquer. Tinha tudo pra ser. Quinta-feira, acordar cedo, trabalho, sono, café, desespero pós-almoço, conformismo no início da tarde. Tudo igual, tudo como sempre - até tocarem a campainha.
Tanto significado num pacote tão simples, mas tão sofisticado e tão lindo e tão-bom-gosto! A gente logo vê, e depois a gente vê que acertou. Nesses momentos inesperados e tensos, em que uma simples frase dentro de um cartão é capaz de te fazer tremer as pernas e ficar incrédulo, eufórico, besta.
Era desnecessário. Meu dia acabaria como os outros, e eu pensaria em você antes de dormir, como nos outros. Mas não. A diferença. Foi além. Fez aquilo que não era preciso, não era necessário. Fez o inesperado, o inescrupuloso, o chocante, o intenso. Arrancou de mim um sorriso e uma lágrima. Plantou em mim um sentimento inesquecível, que muito anseia germinar.
A gente logo vê, e, ah, que magnânima visão!

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Os dois abraços - pt. II

O ar condicionado irritava levemente a minha garganta. Mas estava tudo tão confortável naquele espacinho apertado do banco. Na verdade não era a temperatura ambiente, eram as luzes que, depois de tantas horas, eu passava a reconhecer. Era o lugar. Eu respirava numa euforia incontida - era domingo, e logo logo seria segunda-feira! Ah, como eu esperava pelas segundas-feiras (você nem soube)!
Trafegávamos pelas ruas onde só o que víamos era a sinalização, que correspondia ao farol do carro conforme ele as iluminava. Mas eu sabia que estávamos verdadeiramente perto, quando o rádio tocou a nossa música. Meu coração acelerou, e eu queria correr porque de tanta euforia eu chegaria mais rápido correndo. Sempre tão musicais nossas conversas. Você nunca entendeu mesmo o que eu queria dizer?
Lembro que te fiz ouvir repetidas vezes aquele CD. E agora, uma delas tocava num dos silêncios mais lindos do mundo. Sentia as palhetadas nas cordas do violão gravado, e, ah, eles me entendiam. Estou ensaiado para te tocar.
Há quase um mês estava fora, e sabia que estava tão esquecida que podia ser melhor morrer ali mesmo, com tanta saudade, com tantos planos, mas ainda sem decepções. Aprendi a tocar a música que você gosta, só pra poder cantar pra você. Ai, como eu queria que fosse o meu violão. Quase um mês, e, mais do que nunca, eu sabia muito bem o que queria. Quase um mês sem um contato, sem uma foto. Só as músicas, que sempre me traziam você. Que me causavam muito mais que uma foto ou uma carta poderia causar.
A música que todo mundo descobriu depois de nós. E repetiu incansavelmente na novela, no ônibus, na rua. E tinha mesmo que repetir, porque sempre que eu a escutava por acaso, era uma esperança nova, um quem sabe ela escute e também pense em mim. Na novela onde eu nos via, e você me disse também eu gosto de Maná. E eles tocavam para elas. E eles tocavam para nós.
Quase um mês à espera que passasse. Senti minha vida parar. E agora, as luzes, a música, o caminho. Tudo estava me trazendo de volta à vida, porque estava me trazendo de volta a você. Mas nunca me iludi. Sempre soube que esse sentimento foi meu, só meu.
Agora, todo esse tempo depois, desse quase um mês, só lembro de uma coisa. Quando, na preguiça, aquele acabamos de chegar que fome vamos pedir uma pizza, o telefone tocou. Era ela.
- Eu senti sua falta.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Acima da Carne

Hoje você já me tirou o sono. Mais uma vez. Vou dormir lá pelas tantas, e, quando acordar, não vou conseguir me mover. Mais uma vez. Não pelo sono acumulado, pelas poucas horas (que, como serão bem dormidas, de certo vão compensar mais que muitas mau, só que deixa essa conta pra lá), ou pelo despertador irritante.
Ao abrir minhas pálpebras pesadas e inconformadas (como sempre acontece quando são perturbadas antes do tempo) e tomar consciência de mim, do hoje e do agora, não vou conseguir me mover. Isso porque estarei exatamente como estou agora: mirando essas quatro paredes com as quais me deparo em quase todos os abrires de pálpebras já há alguns anos.
Todo esse tempo, e continuam as mesmas amarelo-esbranquiçadas paredes. Desculpem-me, paredes, se as constranjo com tamanha cara-de-pau, mas não é a vocês que eu vejo.
A vejo nas paredes, no chão, no chuveiro, naquilo que se repete e naquilo que se modifica. Principalmente nas músicas, nos sorrisos e nas paisagens. Se tal ausência, ainda pouca, já me causa isso, que ainda resta pra falar, imagine se a ausência tal se estender por mais dias e menos acessos!
Estou, então, imóvel, estagnada, imaginando, construindo, relembrando, e quando vejo, a hora passou. E, como uma adolescente irresponsável (que sou), disparo à próxima etapa. Onde vou me perder mais uma vez porque é certo que você vai estar e vai aparecer, talvez em mais uma dessas paredes geladas.
Atraso na segunda, dia um.
É que vim da lua, meu caro. Vim das nuvens. E é longe de lá àqui.
Essa semana, especialmente. Semana um. :)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Os dois abraços - pt. I

E R A sempre depois das nove. Depois que os granulados dos brigadeiros já começavam a virar farelo e manchar as forminhas de papel. Depois que o CD com suas músicas já havia tocado duas vezes, e pediram pra trocar. Nesse exato momento (quando as esperanças estavam para se esvair), Ela chegava.

O teu perfume inebriante perdura o instante, a rua inteira levitar.

Sei que, naquele ano (como nos outros), esperei o ano todo. E se ela não fosse, esperaria um ano mais. Só para receber os dois abraços. Um, pelos parabéns. O outro, pelo "desculpa a demora". E só então, depois das nove, eu dava o primeiro sorriso verdadeiro da noite.
Como aconteceu no ano anterior, como aconteceria no ano seguinte. Quando o silêncio retomava o espaço físico por onde ela acabara de passar, eu me recompunha e dormia feliz. Sonhava que ela calculasse o momento certo. Só pra não ser tão fácil e ameaçar não aparecer. Só pra que eu ficasse agoniada, esperando. Só para que fosse maior o efeito quando apertasse a campainha. Sabe esses joguinhos sádicos de amor?
Quem dera fossem!
Só para me dar dois abraços ao invés de um só.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

6:25

O R E L Ó G I O fez um barulhinho quando ele apertou para ver as horas. Pense na luz azul-pequeno e os números fora de foco (era noite, e era tarde). Sabe essa época de relógios digitais com pulseira de borracha? Ah, o cheiro de borracha dos tênis novos, da bolinha e da raquete!
Pensei que jamais viveria sem o Paulinho.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Solidão

E X I S T E S E N S A Ç Ã O mais auto-predatória que a de descobrir que, ao olhar em volta, só restou você, você, você, e mais nada?

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Isso ou As coisas que não dão certo

N O C O M E ÇO, a gente ignora, vai empurrando com a barriga, se faz de cego, de surdo, de burro. Sempre esperando que isso passe e se resolva sozinho. Mas isso não acontece, né? Então, chega uma hora que algo precisa acontecer. Talvez a gente ganhe intimidade pra reclamar e dizer eu não gosto disso disso e disso, e ouvir também os eu não gosto disso disso e disso. Um abraço e um alívio - acho que agora as coisas vão caminhar para nós.
Alguns cumprem com a promessa e evitam o isso isso e isso. Mas, sem perceber, depois de um tempo, começa tudo outra vez (ou são novos os issos issos e issos). Ou nem se preocupam em tentar mudar, continua tudo igual. E os inhos vão ficando ões, os issinhos vão ficando issões, e quando a gente vê tá gritando, surtando no meio da rua, e quebrando tudo.
Uma crise. O castelinho de sonhos desmoronou e você foi o culpado (Culpado!), como pôde? Não, o culpado foi você com todos os seus pontos nos is. Antes ficasse quieto.
Mas não, não conseguem ficar longe um do outro, e acabam se procurando por aí. Vamos mudar. Vamos começar do zero.
E lá vão eles, tudo outra vez.
Detesto ser humano e tão previsível!

Mas é que a tua ausência é o que me dói no calcanhar.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Se amanhã não for nada disso

C A B E RÁ só a mim esquecer.

Me dá um beijo, então. Aperta a minha mão. Tolice é viver a vida assim, sem aventura.
Deixa ser pelo coração. Se é loucura, então melhor não ter razão.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Cara da Gaita

H O J E o meu dia começou diferente. Não porque eu escovei os dentes antes de tomar banho. Nem pela discussão de ontem que eu perdi.
Enquanto esperava o ônibus, um lindo casal de velhinhos passava na rua. De mãos dadas e com tênis de caminhada. Ele, com o cabelo mais branco que a camiseta. Ela, de cabelo curtinho e bem vermelho. Passeando, que nem dois namorados, coisa mais linda.
Sentei-me num dos primeiros bancos do ônibus, lá na frente, next to the roleta, do lado da janela, e fiquei olhando a cidade passar até que eu chegasse ao meu destino. Olhando, assim, sem ver, como sempre. As mesmas ruas, e o mesmo etc. Até que me levanto quando nos aproximamos do ponto onde tenho que descer. E, na jornada entre meu banco e a porta (lá atrás), ouço uma musiquinha. Não dou muita bola até ver de onde vem o som.
Um senhor com cara de doidinho, os olhos vidrados, tocando gaita. Dentro do ônibus. As pessoas estavam meio apreensivas (o que será que ele vai fazer depois?), mas eu fiquei com vontade de dar uma dançadinha, apontando pra ele, e dizendo: é isso aí, cara! Valeu!
Não só dar uma dançadinha ali no ônibus. Deu vontade de nem descer, de ficar ali, de ir com ele pra festinha onde ele ia tocar em plena quinta-feira de manhã.
Mas é isso que nos separa. Ele quis tocar, e tocou. Eu quis dançar, mas fingi que nem vi, como, acredito, o fariam (e o fizeram) a maioria das pessoas. Fingi que ele nem deu uma corzinha a mais no meu dia. E, com uma trilha sonora à melhor cena alegre de filme brasileiro, desci do ônibus me sentindo o próprio Matheus Nachtergaele.
É isso aí, cara! Valeu!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O Silêncio das Estrelas

E U estou,
sinceramente,
literalmente,
profundamente,
CANSADA
de sentir Saudades.