domingo, 4 de janeiro de 2009

Os Dois Abraços - pt. III

Os dias de inverno eram particularmente incríveis. Tinha toda aquela coisa de andar de braço dado. Assim eu chegava perto o suficiente para, de relance, sentir o perfume. Nem tão perto quanto eu gostaria. Nem tão longe quanto a vida me queria. *
Doce e suave perfume, que nunca soube qual era, e nunca existiu em outros tecidos.
Eu me perguntava se tal cheiro era de frasco ou de pele. Doce, suave e natural, como o sorriso, a camiseta cortada, o jeito de prender o cabelo... De repente o frio, e era tarde. Meus ombros monstruosamente encolhidos, ainda mais do que de costume, auto-friccionando os braços cujos pelinhos estavam parecendo bolinhas de tão arrepiados. Não tinha vento. Era o inverno chegando, mas não a ponto de soprar fumaça. As paredes da casa não me deixaram perceber o passar das horas nem o esfriar taciturno das luminárias.
Aliás, não só as paredes. Também a frestinha do espelho do banheiro, que eu conseguia ver pelo corredor. Refletia as nuanças entre testa e ombro, do lado esquerdo. Só. Dependentes da iluminação da tevê, que reluzia várias cores, me permitindo uma viagem meio psicodélica meio quase litúrgica de tentar enxergá-la naquela frestinha distante refletora.
Abrir a porta foi voltar à realidade - fria e peremptória. Sem redenção. Exatamente como o céu negro e sem estrelas que punha fim a mais um cândido dia de quimera, me anunciando a inimizada hora de partir. Deparar-me com tal noite insípida mais do que serviu para se ajustar a meu estado de espírito.
Minha pele gelada refletia meu descontentamento, que foi percebido assim que em contato para se despedir. Tão logo, a solução que nem pretendia ser mas era, sem saber, minha recompensa.
- Pega o meu moletom.
O vesti como um abraço, que me aqueceu o corpo e os ânimos. Era branco, com um desenho estampado. E tinha a fragrância! Doce, suave e natural. Agora em mim, comigo, me protegendo do frio da rua e da frialdade ilusória de mim mesma.

* Por que não um reggae?

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